Escrevendo um bom artigo filosófico

 



Justin Weinberg

Tradução: Jordan Bruno Oliveira Ferreira

Fonte original: https://dailynous.com/wp-content/uploads/2018/12/writing-a-good-philosophy-paper.pdf   

 

A seguir apresento algumas regras para a escrita de um artigo filosófico pensadas para ajudar alunos de graduação a produzirem um bom trabalho. Elas não foram elaboradas para limitar o seu estilo, mas para proporcionar uma boa estrutura para a produção efetiva de artigos cada vez melhores. Quem seguir essas regras tem mais chances de produzir trabalhos melhores.

1. Siga as instruções. Faça o que você foi solicitado a fazer. Não complique as coisas fazendo algo que não foi solicitado. Se você fizer muitas coisas ou tentar dar conta de ideias demais, acabará com muitas páginas, mas pouco conteúdo.

Se não souber o que fazer, pergunte ao professor.

2. Responda à questão. A tarefa pede que você responda uma questão (ou questões). Uma necessária – mas não suficiente – condição para um bom trabalho é que você responda a questão feita. Para responder essa questão você deve saber o que é questionado, então se certifique que você sabe qual a questão em jogo.

Perceba que muitas vezes nós podemos fazer uma questão de forma adequada apenas perguntando e respondendo a outra questão. Como um exemplo, temos a questão “os argumentos de Sócrates no Críton contra fugir da prisão são bons argumentos?” Para responder essa questão, devemos fazer e responder uma perguntar adicional: “Quais são os argumentos de Sócrates contra escapar da prisão?”

3. Organize seu artigo. O que você escreve pode ser verdadeiro, mas seus leitores devem ser capazes de identificar o que está sendo dito, ou seguir seus argumentos – caso contrário, eles serão incapazes de compreender o texto. Um argumento parecerá menos convincente se estiver mal organizado. Considero este formato de artigo o mais interessante:

a) Introdução. Se você quer organizar a questão com alguma informação, afirmações gerais ou exemplos sobre o tema do artigo, ok... Mas a parte mais importante da introdução é a sua tese argumentativa. Sua tese é sua resposta “inicial” à questão. Você deve apresentar sua tese em uma ou duas afirmações já no início do artigo, ou pelo menos já na introdução.

Considere novamente a tarefa básica de responder a questão “os argumentos de Sócrates contra fugir da prisão são bons argumentos?” Uma possível afirmação inicial seria, “Vou argumentar que Sócrates apresenta argumentos muito convincentes sobre porque não deveríamos fugir de uma prisão”. Outra possível apresentação da tese poderia ser, “vou demonstrar que, apesar de à primeira vista os argumentos de Sócrates parecerem convincentes, eles são falaciosos e ele deveria ter fugido da prisão”.

Sua introdução não deve ter mais que um parágrafo.

b) Afirmação estratégica. Em sua afirmação estratégica, que é um parágrafo mais longo após o parágrafo introdutório, você mostrará como você irá argumentar a favor da conclusão de sua tese argumentativa. Ou seja, você deve dar ao leitor um breve sumário acerca do que veremos nas próximas páginas. Um artigo filosófico não é uma narrativa misteriosa do tipo que vemos nas histórias de Sherlock Holmes; suspense e surpresa não tem muito valor aqui. Se ao final do artigo, o leitor é surpreendido pela conclusão, isso geralmente é sinal de que o artigo não foi bem escrito.

Suponha que a minha tese é “Vou argumentar que Sócrates fornece argumentos altamente convincentes sobre porque não deveríamos fugir da prisão”. Uma afirmação estratégica em um artigo de dez páginas seria algo parecido com o seguinte:

Começarei apresentando os três principais argumentos de Sócrates contra escapar de uma prisão. Esta explicação mostrará que há três princípios básicos em jogo no raciocínio de Sócrates e que o julgamento de Sócrates, neste caso, de fato segue racionalmente estes três princípios. Mas para analisar de forma mais profunda se deveríamos aceitar estes argumentos de Sócrates, devemos determinar se estes três princípios são aceitáveis. Visando este fim, discutirei uma possível objeção aos princípios básicos de Sócrates, neste caso, que estes princípios não deveriam ser tomados como regras absolutas ou inquebráveis. Depois de desenvolver esta objeção, minha resposta será apresentada em duas partes. Primeiro, mostrarei que de fato devemos tomar estas regras como absolutas e inquebráveis. Depois, mostrarei que, mesmo que às vezes quebremos essas regras por outros motivos, tais motivos não valem para este caso, e assim a argumentação de Sócrates se sustenta.       

 

A razão desta afirmação estratégica é fornecer ao leitor um mapa do seu artigo. Assim, se o leitor se confunde ou se perde no texto, ele pode sempre retornar à afirmação estratégica para se localizar novamente.

c) Execução da estratégia. Faça o que você se propôs a fazer na afirmação estratégica: explique teorias, forneça definições, argumente, dê exemplos, aponte objeções, e siga em frente. Esta é a parte central do seu artigo.

d) Considerações finais. Inclua aqui uma reafirmação de sua resposta e um resumo de seus argumentos centrais.

 

4. Revise o texto. Após terminar de escrever seu artigo, deixe-o de lado por uma ou duas horas, talvez até por um dia inteiro. Nesse período, pense sobre outras coisas, relaxe, durma, faça qualquer outra coisa. Então retorne ao seu artigo e leia-o – lentamente e cuidadosamente – como se outra pessoa tivesse escrito o artigo. Se você não fosse o autor, você entenderia o que está escrito? Acharia os argumentos convincentes e válidos? Os exemplos fazem sentido? Você achou a pontuação, gramática e estilo chatos ou uma distração? As palavras e nomes estão corretos do ponto de vista da ortografia? As referências estão certas? As citações estão corretas? Revise o artigo levando em conta estas perguntas.

Recomendo a leitura de algum manual de escrita e redação de artigos científicos e trabalhos acadêmicos.

5. Use os exemplos com cuidado. Às vezes, é útil utilizar exemplos para ilustrar algo. Exemplos muitas vezes são usados porque parecem demonstrar imediatamente e resumidamente a verdade de um certo argumento que estamos defendendo. Mas, nem sempre é o caso. Mesmo os melhores exemplos podem ser mal interpretados pelo leitor, ou falharem em seu propósito. Portanto, você deve sempre levar algum tempo explicando porque aquele específico exemplo é importante para fundamentar o argumento.

6. Aponte objeções. John Stuart Mill disse: “Aquele que sabe apenas seu lado do caso sabe muito pouco”. Não espero que seus argumentos sejam invulneráveis a críticas. Mas espero que você leve em consideração e responda ao menos a algumas objeções razoáveis e contra-argumentos. Isto requer que você pense primeiro: “como alguém se oporia a este argumento?” – por exemplo, apresentando falhas na sua interpretação ou raciocínio; ou talvez apresentando um contraexemplo mais complicado. Ou pense, em segundo lugar, cobrar de você alguma resposta a contra argumentação.

As objeções que você terá de lidar devem ser especificamente acerca de sua tese ou argumento. Objeções irrelevantes e refutações sem fundamento devem ser ignoradas.

Pode ser útil pensar esta parte do artigo como sendo uma espécie de autoexame. Seus oponentes questionarão e tentarão derrotar seus argumentos. Como eles fariam isso? E Como você se defenderia? Se você decidir que um questionamento pode ser muito difícil de lidar, seu texto deve ser submetido a uma revisão.

7. Cite suas fontes.

a) você deve registrar a fonte de qualquer citação presente no texto.

b) você deve registrar a fonte de qualquer passagem parafraseada em seu artigo.

c) você deve registrar a fonte de qualquer ideia que não é sua mencionada no artigo.

Uma boa regra que você pode seguir acerca de citações é: “se você está em dúvida se deve citar, cite!”.

Cite com cuidado. Não insira erros gramáticos ou ortográficos em trabalhos alheios. Também, após ou antes de citações, é útil tomar cuidado para explicar em suas próprias palavras o que o autor diz.

FALHAS AO CITAR SUAS FONTES – INTENCIONALMENTE OU NÃO – É PLÁGIO!

Se eu suspeito que você comete plágio, reportarei às autoridades devidas. Por favor, não tente algo tão bobo.

Notas de rodapé, referências e notas de fim texto são aceitáveis como citação. Basta seguir as regras da ABNT.

8. Conheça seu público. Para quem você está escrevendo? Se é um professor universitário, é como se você estivesse escrevendo para si mesmo. Escrever um artigo é uma experiência de aprendizagem e uma oportunidade de desenvolvimento e lapidação de seus pensamentos acerca de um determinado tema filosófico. É um dos meios que você tem para melhorar.

Mas, ainda permanece a questão acerca da submissão do artigo. Se você está escrevendo apenas para si mesmo, talvez não seja o caso de tomar tanto cuidado na escrita. Se você está escrevendo para um professor universitário, você deve tomar os cuidados necessários que apontamos ao longo deste artigo. Ele saberá do que se trata o artigo. Mas você deve ser capaz de mostrar sobre que entende do assunto de modo razoável e ser capaz de argumentar de modo que o professor entenda, apresentando ideias, conceitos e argumentos reconhecíveis a um professor.

De fato, você deve tomar como sua audiência seus próprios colegas de classe. Isso não significa que eles vão concordar com você, então você deve ser convincente; nem todos eles saberão do que se trata seu artigo, então eles vão demandar explicações. Mas eles são conhecedores do tema ao menos superficialmente, então não comece o artigo com algo do tipo “A palavra ‘filosofia’ surgiu na Grécia e tem a ver com ‘amor’ e ‘sabedoria’”.

9. Argumente! Lembre-se, você está tentando convencer o leitor da verdade de sua tese, que sua resposta para a questão é a melhor. Não é suficiente apenas alegar que sua visão resume a visão de outros. Você deve fundamentar suas posições com argumentos e razões. Se essas razões são controversas, não é suficiente abordá-las; você deve prover evidências e argumentos adicionais. Não pense que um dicionário pode resolver uma dúvida acerca de um termo ou conceito controverso.

Busque um bom manual, dicionário de termos filosóficos ou mesmo um livro de história da filosofia.

10. Formate seu texto.

a) use o espaçamento correto

b) use as letras do tamanho solicitado

c) use a fonte solicitada

d) use uma boa impressora

e) não faça uma capa. Geralmente artigos científicos não demandam capa, como no caso de um TCC (monografia, etc.).

f) seu artigo deve ter um título

g) numere as páginas

De um modo geral, serão fornecidas as devidas informações acerca da formatação, então apenas siga-as!

      

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