Posicionando a Pós-Fenomenologia
Don Ihde
Tradução de Jordan
Bruno Oliveira Ferreira
Pós-fenomenologia
é um estilo filosófico de análise que lida com os estudos científicos e
tecnológicos. É algo recente em uma série de interpretações elaboradas ao longo
dos séculos XX e XXI que tratam da ciência, da tecnologia, dos estudos
culturais e da tecnociência. Mas por onde começamos? Se existe uma “abordagem
padrão”, então a ciência moderna recente é tida como algo que data do século
XVII. Mas o termo “cientista” não aparece ou é usado até o início do século
XIX. William Whewell cunhou o termo em 1883. Antes deste neologismo, “filosofia
natural” era o termo dominante em uso.
O
que esta mudança no termo indica é uma questão mais profunda: quem deve
interpretar a ciência? Intérpretes precoces poderiam ser identificados, ainda
que anacronicamente, como cientistas (Galileu, Leewenhoek) ou como filósofos
(Bacon ou Descartes). Mas, como eu tenho apontado, a ciência moderna no seu
princípio tomou muito de sua especificidade das tecnologias – instrumentos,
geralmente ópticos – então devemos também levar em conta que o que existe é a
ciência e as tecnologias. E aqui o
mesmo dilema aparece, já que o termo “tecnologia” só aparece no linguajar comum
muito depois que o termo “cientista”. Historiadores como Thomas Hughes e David
Nye têm apontado que “tecnologia” como um termo só aparece no início do século
XX. Antes de tecnologia, existiam as “artes industriais” e “engenharias” ou
“máquinas”. Em resumo, uma nova terminologia aparece bem depois, com as
mudanças que dizem respeito a ciência e a tecnologia já tendo ocorrido na
prática. Quando Whewell cunha o termo “cientista”, o cotidiano já havia
demonstrado como um secular, dessacralizado novo modo de raciocinar poderia ser
reconhecido enquanto tal. Similarmente, apenas após uma massiva
industrialização o termo “tecnologia” poderia ser reconhecido.
Aqui
minha abordagem se relaciona a pós-fenomenologia como um modo particular de
interpretação da ciência-tecnologia. Sua chegada coincide com uma mudança radical
ocorrida na virada do século XX para o XXI nos estudos das relações entre
ciência e tecnologia. Eu tomo o ano de 1979 como um divisor de águas por conta
da publicação de dois livros: Laboratory
Life, de Bruno Latour e Steven Woolgar e o meu Technics and Praxis. A obra de Latour geralmente é tomada como um
marco de uma nova sociologia da ciência (é interessante que o título original
era “construção social” dos fatos científicos,
mas social foi abandonado na segunda
edição). Meu livro é frequentemente citado como o primeiro livro em língua
inglesa que tratava de filosofia da tecnologia. (Noto de passagem que não
conhecia Latour naquela época, nem seu livro – o mesmo vale para ele em relação
a minha pessoa e obra; nem “teoria do ator-rede” ou “pós-fenomenologia” eram
descritos como métodos).
Não
tenho o tempo ou o espaço aqui para delinear as variadas e importantes mudanças
no entendimento da ciência, desde seu início moderno (século XVII) passando
pela progressiva autonomia (século XVIII), até sua elevação ao status de forma
suprema de conhecimento (século XIX). Ao invés disso, vou concentrar meus
esforços em uma rápida série de mudanças, começando no século XX. Ainda no
início do século, as interpretações dominantes eram centradas na matematização (Duhem, Mach, Poincare)
seguida pela ascensão do positivismo (o Círculo de Viena, et al) e os intérpretes
eram os cientistas, filósofos e historiadores – a maioria eram matemáticos,
lógicos e teóricos. Ainda tomando a ciência como um tipo de conhecimento
linear, acumulativo e a-histórico universal, algo herdado do XIX, esta
interpretação era a dominante. Mas ela começou a ser questionada por volta da
década de 1950 por uma postura antipositivista. Teóricos descontinuadores
começaram a descrever “revoluções científicas” e uma ciência saturada pela
história (Khun, Foucault, Feyerabend, et al). Ciência começou a ser tomada como
uma estrutura cultural e histórica, e interpretada a partir de um novo contexto
institucionalizado através da historiografia [history] e filosofia da ciência vinculadas a um departamento (nos
anos 1950 e 1960). Juntamente com a historiografia e a filosofia da ciência
existia também uma sociologia da ciência (Merton) que olhava para a prática
científica, mas com um foco nos produtos da ciência – como as métricas das
citações e as classificações. Esta sociologia da ciência cronologicamente
coincidiu com os debates positivistas vs
antipositivistas. No entanto, por volta da década de 1970, ocorreu mais uma
reviravolta. Neste caso, suas origens eram mais relacionadas a aspectos
sociológicos. No Reino Unido, sua localização mais precoce, existiam os Estudos Sociais do Conhecimento Científico
(SSK, em inglês) e o Construtivismo
Social, como terminologias de uma nova abordagem (Bloor, Barnes, Collins).
Como no caso da anterior sociologia de Merton, construtivistas sociais também
tomavam a ciência como uma prática, mas ao contrário de seus predecessores,
eles começaram a ver que o conteúdo do conhecimento científico em si era “socialmente
construído”.
Foi
neste momento que a fenomenologia passou a ter um papel tangencial, de pano de
fundo. Berger e Luckman publicaram The
Social Construction of Reality (1966), obra inspirada pelos trabalhos de
Alfred Schutz e Edmund Husserl. E, enquanto a fenomenologia era silenciada em
sua versão inglesa do construtivismo social, manteve seu foco interpretativo na
práxis. Agora chegamos no cruzamento
de minha escolha, 1979, e no nascimento daquilo que seria a Teoria do Ator-Rede
e pós-fenomenologia.
Em
Laboratory Life, Latour descreveu a
si mesmo como um sociólogo e antropólogo. Cultura de laboratório era o
substituto para o termo “tribo” e ele poderia atuar como um observador
participante. Então, como um observador, ele seguiria estes cientistas e
técnicos para tomar notas acerca de suas atividades e conclusões. Como o
conhecimento científico é produzido? Aqui, eu confesso, eu li este livro bem
depois de seu lançamento, já que anos antes eu havia lido o seu Science in Action (1987), que tinha uma
pegada bem mais filosófica redefinindo Laboratory,
ainda que a maioria das ideias do livro já estivessem presente no livro
anterior na forma de um diário-entrevista. Desde o princípio, ficou óbvio que a
abordagem de Latour é radicalmente diferente dá que vemos em trabalhos de
historiadores e filósofos da ciência, e também de sociólogos precedentes. Ele,
de forma autoconsciente, trouxe uma abordagem “crítico literária” para descrever
o que os cientistas fazem. Ainda que o glossário do livro não traga o termo
“semiótica”, seu estilo é algo que posteriormente foi denominado semiótica material. Deve ser notado
também que o laboratório em questão era o de Roger Guillemin no Instituto Jonas
Salk, portanto um bioquímico. Assim, contrário aos interesses tradicionais dos
historiadores e filósofos da ciência, que assumem um “primado da física, da
matemática e da astronomia”, Latour prioriza a biologia, a química e a
neurologia.
Eu
inicio minha análise da obra com o retrato que Latour faz do laboratório em seu
arquivo fotográfico – uma espécie de geografia do laboratório. Três imagens se
sobressaem: maquinarias e instrumentos
(cinco de quatorze) são mostrados. Pessoas
– às vezes também usando estes instrumentos – são mostradas, geralmente
debatendo ou lendo algum material. E, material
de leitura – xerox, impressões, artigos e às vezes máquinas que produzem
material impresso. Isto é, claro, o que o observador vê andando ao redor do
laboratório. Agora suponha, imagine, um conjunto similar de fotografias
associadas à abordagem do início do século XX (filosofia da ciência
matematizada, teórica) – estas fotos seriam de um Einstein sentado e refletindo
sobre um experimento mental? De um matemático fazendo cálculos em um quadro
negro? Ou, de um kuhniano mostrando como um instrumento melhorado aponta para
um novo paradigma que inclui novos modos de ler. Kuhn aponta que a teoria
eflúvia do século XVII via “partículas de palhas... caírem de corpos
eletrificados” (1970,117). Mas depois este fenômeno foi tomado como “repulsão
eletroestática”, mesmo não sendo visível até que “Hauskbee montou um aparato de
larga escala que ampliou a visão desses efeitos” (Kuhn, 1970, 117). E de novo,
“Herschel, quando observou pela primeira vez o mesmo objeto vinte anos depois,
conseguiu notar um aparente formato de disco que não era típico das estrelas”.
O que estou sugerindo é que na época da abordagem matematizada, da ciência
teórica, os instrumentos não possuíam um papel relevante; depois, o papel
destes instrumentos (Kuhn) é reconhecido, aceito e acelerado com Latour.
Agora
vejamos as três imagens que Latour apresenta como tema de sua
antropologia-sociologia – mas também de suas observações teóricas de caráter
hermenêutico-literário. Irei começar rascunhando a nova interpretação da
ciência que resulta desta abordagem. Começarei não pela perspectiva aberta de
Latour, mas com as “tecnologias” do laboratório. Primeiro, instrumentos
bioquímicos diferem daqueles de outras ciências. Latour inclui entre suas
fotografias (1) um contador Gama, (2) um aparelho de espectroscopia de ressonância magnética, (3) uma coluna de
fracionamento e (4) um aparelho de
análise automática de aminoácidos. A maior parte destes instrumentos se
relacionam a bioensaios (um ensaio ou experimento científico com a função
de investigar os efeitos de compostos biologicamente ativos, em um órgão
isolado ou em um organismo vivo) e o material que é utilizado neste tipo de
experimento é biológico, hormonal, químico – incluindo muita matéria encefálica
de ratos e outros materiais oriundos de animais. Perceba que o objeto que está
em construção é o TRF (ou TRH – hipotalamico liberador da tirotrofina) que demanda “toneladas de tecido hipotalâmico
obtidos em matadouros). Os instrumentos mencionados são usados no processo de
isolamento e identificação do TRF(H), o novo objeto científico de estudo.
Latour reconhece o importante papel desempenhado pelos instrumentos
(tecnologias) mas provê uma descrição peculiar deste papel: instrumentos são aparelhos de registro [inscription]. O que os instrumentos
fazem é produzir o que posteriormente é descrito como uma “imagem”, mas que
permanece como um registro. Isto é
uma ênfase no visual no que Latour está desenhando a partir da dimensão
hermenêutica-literária identificada em sua abordagem. Os instrumentos em uso
aqui – espectrômetro e o aparelho de análise de aminoácidos – proporcionam
gráficos (visuais). Estes são rabiscos padronizados reconhecíveis em uma série
de aparelhos (como um eletrocardiograma) com picos, pulsos e coisas do tipo. Eu
chamo estes padrões de imagens não-isomórficas que, ao contrário do que vemos
em fotografias (imagens isomórficas que correspondem ao que foi fotografado),
são mais parecidos com textos – ou textos codificados que são “lidos”. Ondas
gráficas oscilantes impressas em um rolo de papel é o que o cientista vê.
Percebe-se porquê a noção linguística de “inscrição” ou “traço” de Derrida pode
ser notada nesta situação.[1]
Agora, abordarei o terceiro tema das fotografias –
materiais escritos, artigos científicos, notas e coisas do tipo. Latour observa
novamente a partir de um ponto de vista literário o trabalho realizado no
laboratório – o que os humanos produzem? Textos, artigos, anotações. Como este
material é produzido, lido e processado nos dá uma série de pistas acerca de
como o conhecimento científico é construído. Não detalharei todas as ações de
Latour, mas brevemente, o que se tem ao final de sua análise, o que resta, são
fatos científicos. Neste processo, digamos, estilístico, todos os traços de
história, subjetividade e construção são removidos. Então, ao contrário do que
ele observa etnograficamente, todo o processamento que ocorre no laboratório, é
tomado de modo a fazer com que o objeto [TRF(H)] seja removido de seu processo
dinâmico. O que ficam são os instrumentos que produzem inscrições, que depois
são publicadas em artigos científicos que alegam ter descobertos novos fatos
científicos – mas estes são, por sua vez, descritos como descobertos, como
coisas que estavam sempre lá. Em resumo, o estilo retórico deste estilo
literário elimina as contingências, as disputas, o processo que ocorreu no
laboratório e que foi observado por este sociólogo-antropólogo.
Agora precisamos falar dos humanos (da tribo) que
opera os instrumentos e produzem os escritos. Aqui eu direciono meu olhar para
o capítulo de conclusão, “A criação da Ordem e da Desordem”. Revendo suas
observações, Latour descreve um processo pelo qual o objeto científico ou fato
(TRF) vem a ser. De um modo geral, ele só se estabiliza após muito
processamento – o TRF é lentamente construído
por meio de muitas tentativas e manipulações, “após oito anos de inscrições
geradas pelos instrumentos que sustentaram os extratos encefálicos, as
afirmações científicas se estabilizam o suficiente para permitir uma virada
rumo a uma nova articulação”. Agora, uma nova realidade, o TRF, é visto como consequência do processo. Apenas
passando pelo que Latour denomina campo
agonístico, pode o objeto-fato (TR) ser reificado
ou materializado. Percebe-se que por
um lado, Latour inverte o que usualmente se entende acerca de como o
conhecimento científico é produzido. Na perspectiva de Latour, “natureza” é
sempre a última a aparecer, uma consequência
de uma longa construção; “Natureza é um conceito útil apenas como um subproduto
da atividade agonística. O laboratório é o lugar onde a construção ocorre.
Agora abordarei meu próprio livro, Technis and Praxis: a Philosophy of
Technology, que também foi publicado em 1979. Filósofos raramente
demonstraram interesse no tema da tecnologia, até a modernidade tardia. Mas
após a Revolução Industrial e as Guerras Mundiais, o impacto das tecnologias não poderia mais ser ignorado. Para
a filosofia, no entanto, isso demandava uma mudança de temperamento. O
temperamento dominante na filosofia, desde a filosofia grega antiga, favoreceu
o ideal, o abstrato, e muitas vezes marginalizou o material, ou, como no caso
das reflexões sobre o corpo e a mente, colocou o material em uma hierarquia
inferior. Portanto, em relação a ciência e a tecnologia, a segunda quase sempre
foi rebaixada, tomada como um epifenômeno, ou uma “aplicação”. Comecei a
perceber a importância das tecnologias, ferramentas e da materialidade das
coisas quando ainda estava na Southern Illinois University. Fui encarregado de
realizar atividades interdisciplinares no SIU Honors College, onde, em 1964, o tema era
“a sociedade do lazer [leisure]”. As
leituras propunham apresentar as tecnologias modernas como liberadoras de uma
quantidade de tempo livre suficiente que possibilitariam a criação de uma “Nova
Atenas”. Eu era cético em relação ao argumento do tempo livre e
comecei a refletir sobre uma fenomenologia
do trabalho. O que me chamou a atenção era ver como qualquer tipo de
trabalho dependia profundamente de algum tipo de ferramenta, artificial ou tecnológica. Eu pedi aos meus estudantes
que fizessem uma espécie de diário de seu cotidiano e descrevessem
especificamente suas relações com as tecnologias.
(Acordado por um alarme; lidou com
uma série de tecnologias de banheiro; torrou um pão com a torradeira; escreveu
o diário com uma caneta e bloco de notas; de modo que cada aluno perceberia
múltiplas – mesmo centenas – de relações travadas com tecnologias ao longo dos
dias).
Naquela época, eu também estava lendo Heidegger de
forma séria, partindo do tema do primado da prática [pragmata] sobre os objetos científicos na experiência humana do Mundo.
Heidegger foi provavelmente o primeiro a alegar que a tecnologia é
“ontologicamente anterior” à ciência. Por volta dos anos 1970, eu estava
redigindo artigos sobre as relações humano-máquina com um especial interesse no
papel dos instrumentos na atividade científica. Este trabalho foi convertido
nos primeiros quatro capítulos de Technics
and Praxis – uma série de análises fenomenológicas de diferentes tipos (de
relações humano-tecnologia, incluindo exemplos de usos científicos).
Nestas análises, eu estava afirmando a existência de
uma série de novas e não-clássicas modificações fenomenológicas: continuei a
usar um termo que depois denominei de ontologia
interrelacional, sugeridos a partir da “intencionalidade” de Husserl e do
“ser-no-mundo” de Heidegger; mas exercendo um papel de mediação, eu inseri as
tecnologias materiais. Mundo-Humanos-Tecnologias se tornou a expressão formal
desta interrelacionalidade. Humanos ativamente utilizando tecnologias, se
relacionando por mediação com o Mundo. O que veio a ser conhecido como minha
“fenomenologia das técnicas” começou aqui, com uma análise descritiva das
relações de incorporação, hermenêutica e pano de fundo. [depois adicionei as relações de alteridade em Tecnologia e Mundo da Vida, 1990]. Em Technics and Praxis, estes quatro
capítulos foram denominados “Programa em Filosofia da Tecnologia”. Era uma
clara análise orientada pela prática, ainda que não sociológica. Ao invés
disso, era uma abordagem fenomenológica com ênfase na forma como cientistas e
similares estavam incorporando, perceptualmente, ao adentrarem no mundo por
meio de instrumentos. Não irei aqui detalhar este tema, já que ele reaparece
várias vezes ao longo deste livro. Mas eu analisei os meios pelos quais alguém
pode, utilizando instrumentos tecnológicos, ver estes são não-neutros, transformando a experiencia do mundo. Com meu exemplo
do telescópio – que repeti e melhorei ao longo dos anos – analisei como o mundo
celestial visto a olho nu é transformado pelo uso de instrumentos ópticos. De
fato, por meio de instrumentos ópticos, a teoria Copernicana dos céus
finalmente desbancou o mundo Ptolomaico. A fenomenologia de Technics and Praxis enfatizou o papel da
incorporação aos usos das
tecnologias. Diferentemente de Laboratory
Life, a incorporação das tecnologias não se dá por meios linguísticos ou
textuais. Esta diferença se sobressai por causa das divergências entre a
abordagem semiótica e a fenomenológica adotada pelos autores. Ainda persiste
como uma grande diferença até hoje.
Agora já ultrapassei a fronteira de 1979, mas os
paralelos cronológicos persistem – ainda independentes – por muitos anos. John
Law, um frequente editor e colaborador no Centre
de Sociologie de l’innovation e da Ecole
Nationale superiere des Mines de Paris, onde Latour e seu colega Michel
Callon estavam lotados, notou que Callon começou a usar o termo “Teoria do
Ator-Rede” por volta de 1982. No meu caso, após muitas leituras e discussões do
pragmatismo norte-americano não-fundacionista liderado por Richard Rorty,
comecei a dar aulas em Goteborg, na Suécia, sobre o tema da “fenomenologia
não-fundacionista”. Mesmo que eu ainda não tivesse cunhado o termo
“pós-fenomenologia”, virtualmente todos os intérpretes já percebem seu
aparecimento por volta de 1986. Similarmente, ambos Latour e eu publicamos
versões melhoradas de nossos livros de 1979 – Latour com Science in Action (1987) e eu com Technology and Lifeworld (1990). Tenho a opinião de que ambos os
livros são melhores e mais coerentes que suas primeiras versões. Por volta
desse período, nossos caminhos passaram a se cruzar em eventos e conferências
[...] Eu estava ciente da existência de Science
in Action e por meio dele, Latour teve um papel significativo no meu livro
de 1991, Instrumental Realism: the
interface between Philosophy of Science and Philosophy of Technology.
Um olhar para as novas interpretações da ciência e
da tecnologia nos anos 1980 demonstram um rápido florescimento no campo das
publicações: a filosofia da tecnologia finalmente levantou voo com Albert
Borgman, Langdon Winner, Hubert Dreyfus e Andrew Feenberg se juntou ao grupo
com livros publicados; pensadoras feministas como Donna Haraway, Sandra Harding
e Evelyn Fox-Keller lidaram com temas da ciência-tecnologia. As sociologias
francesa e inglesa proliferaram. Surgiram também elementos comuns que
atravessavam a obra destes autores. Todos concordavam que a ciência, ao
contrário das interpretações anteriores voltadas para o transcendental e
a-histórico, é histórica, cultural e mesmo comprometida com gênero. Estes
pensadores colocaram em funcionamento uma versão interpretativa, de estrutura
interrelacional, de como se dá a construção da ciência e da tecnologia. Agora
chegamos a década de 1990. Especificarei meu foco na emergência da pós-fenomenologia (1993 é o ano da
publicação do meu Postphenomenology: Essays in the Postmodern Context).
Foi nos anos 1990 que conheci Peter-Paul Verbeek,
primeiro como aluno de doutorado fazendo pesquisas interessantes sobre
filosofia da tecnologia. Em 1997, Hans Achterhuis, colega mais velho de
Verbeek, publicou American Philosophy of
Technology: the Empirical Turn (primeiro em 1997, depois em 2001). O
capítulo de Verbeek, “Don Ihde: The Technological Lifeworld”, foi uma ampla
análise de meu trabalho, tomando como referência Heidegger. Verbeek já
comparava a Teoria do Ator-Rede com a pós-fenomenologia e em uma palestra de
1998 realizada na Holanda, me pediu para falar sobre as relações entre as duas
abordagens. Felizmente, eu já estava dando aulas sobre Science in Action em minhas disciplinas de filosofia da ciência.
Mais importante, revendo o período, nós já estávamos lidando com alunos de
graduação que tinham interesse nos estudos sobre ciência e tecnologia que realizávamos.
No meu caso, eu sonhava com a existência de algum
instituto que realizasse esse tipo de estudo, e por volta de 1994, começou o
que seria uma longa progressão de professores visitantes, cursos e
pós-doutorandos, mas também alunos de mestrado da Europa e da Ásia. Monique
Riphagen da Holanda e Sung Dong Kim da Coreia do Sul, com um projeto de
tradução de Technics and Praxis para
coreano, foram os primeiros. Tínhamos um grupo de leitura informal que
continuou até 1998, quando o seminário de
pesquisa em tecnociência foi estabelecido como parte efetiva do programa de
doutorado de Stony Brook. Continuamos nossas leituras e os primeiros trabalhos
incluíram o famoso “debate de galinhas” entre os defensores da SSK (Sociologia
do Conhecimento Científico) e os defensores da ANT (Teoria do Ator-Rede) e
nossos primeiros “filhotes” eram associados com essas linhas de pensamento.
Isto continuou até minha aposentadoria em 2012 e contou com muitos professores
visitantes, que produziram dissertações e teses em Stony Brook e no exterior.
Doutorados de Stony Brook na área de tecnociência neste período incluíram Evan
Selinger (RIT), Ken Yip (NYT), Robert Rosenberger (GIT), Kyle Whyte (MSU) e
Adam Rosenfeld (NCA&M). Muitos desses filósofos jovens já possuem destaque
na área e muitos já apresentaram trabalham em seminários voltados ao tema da
pós-fenomenologia. Além disso, nos primeiros anos contamos com três
dinamarqueses e um argentino que completaram mestrados, e doutorandos
visitantes sob minha orientação incluíam dois dinamarqueses, dois noruegueses e
um aluno da Suécia, Grécia, Reino Unido e Holanda.
Chamávamos esse grupo de Technoscience Research
Group (TRG), com seu próprio seminário em tecnociência. Seu primeiro livro
publicado foi Chasing Technoscience
(2003) editado por Evan Selinger e eu. Lidava com o tema da materialidade nas
obras de Donna Haraway, Don Ihde, Bruno Latour e Andrew Pickering, com
contribuições e críticas dos professores do próprio TRG. Também estabelecemos a
tradição da “sabatina” [roast]. Cada
semestre possuía um tema e um “sabatinado” era escolhido – primeiro para ser
lido e discutido por seis semanas – depois para ser criticado e sabatinado por
três horas. Acabamos trabalhando com filósofos da ciência (Rouse e Galison),
filósofos da tecnologia (Borgmann, Feenberg, Dreyfus, Winner e Verbeek),
sociólogos da ciência (Pickering, Collins e Pinch), pensadoras feministas
(Haraway, Harding e Fox-Keller), um historiador da ciência (Forman) e,
finalmente, eu mesmo como parte da minha aposentadoria.
O seminário encorajava os participantes a formular
conferências voltadas ao tema das relações entre ciência e tecnologia. A
princípio, eram contribuições individuais durante os anos 1990 e primeiros anos
dos 2000, por volta de 2006 nós começamos a propor painéis voltados
especificamente ao tema da pós-fenomenologia que eram apresentados a Society
for Phenomenology and The Human Sciences, e em 2007, para a Scoail Studies of
Science e a Society for Philosophy and Technology. Estes evoluíram rapidamente para
múltiplos painéis e já se quadruplicaram e quintuplicaram. No mesmo período, e
em paralelo a operação em Stony Brook, Verbeek começou a dirigir um programa de
pós-graduação que envolvia alunos da Holanda. Além disso, participantes de
Stony Brook e mais de vinte países começaram a formar um grupo reconhecível,
que hoje conta com mais de cem participantes.
Como a lista é muito extensa, apontarei que o número
de publicações é crescente – livros, dossiês, artigos acadêmicos – no que diz
respeito ao tema da pós-fenomenologia. Verbeek também continuou interessado na
ANT e em pós-fenomenologia, criando um painel especial em Roterdã, o 4/S (2008)
– que teve um público muito grande. Este tema foi posteriormente retomado em
uma conferencia em Manchester (2009) e Arlington (2010). Verbeek também
publicou dois livros muito citados, What Things
Do (2005) e Moralizing Technology
(2011). E estes dois livros também marcaram o inicio da primeira série sobre
pós-fenomenologia, “Postphenomenology and the Philosophy of Technology”,
publicada pela Lexington, que originou uma série de trabalhos gestados em programas
de pós-graduação.
Concluindo, irei resumir alguns dos principais
elementos comparativos dos dois tipos de análise:
- ANT e pós-fenomenologia empregam
ontologias inter-relacionais. Mas as tradições filosóficas que lhes servem de
base são diferentes. ANT se baseia na semiótica, que tem como fundamento a linguística
textual. Pós-fenomenologia se baseia na incorporação da análise das ações
humanas e da percepção. Mesmo assim, a interrelacionalidade nas duas não vê uma
mudança no Mundo como algo que causa
uma mudança no que é humano.
- ANT e pós-fenomenologia são materialmente
sensíveis. Na ANT, sensibilidade ao material tomou a forma daquilo que é
distinto nos actantes humano e no não-humano. ANT também se fundamenta numa
geral e equalizada simetria entre humanos e não-humanos. Como víamos anteriormente,
Law usa o termo semiótica material
para se referir a esta situação. A pós-fenomenologia não se baseia em uma
simetria específica, mas em uma série de gradações entre tipos de atividades.
Mas ela ainda é materialmente sensível – por exemplo, a pós-fenomenologia
reconhece intencionalidades instrumentais
ou seleções embutidas nas tecnologias. Estou desenvolvendo uma hermenêutica material modelada a partir
do uso de instrumentos científicos contemporâneos para “deixar as coisas
falarem”.
- as duas metodologias abandonaram a
dicotomia “sujeito-objeto” e substituíram múltiplas transições e noções
estruturais como “translação” na ANT e “multiestabilidade” em
pós-fenomenologia.
- a pós-fenomenologia mantém uma
versão da teoria variacional da
fenomenologia, que é um método que possibilita múltiplas estruturas de modo a
fazer ver que o que é variante e invariante seja visível.
Atualmente, nos círculos da STS na
Europa, a ANT permanece como o método dominante. Eu noto que no painel de
Manchester existia uma certa divisão, com os sociólogos trabalhando com a ANT,
e os antropólogos trabalhando mais com a pós-fenomenologia. Filosofia da
tecnologia é altamente favorável à pós-fenomenologia e em 2013 no evento de
Lisboa, a Sociedade para a Filosofia e a Tecnologia, foram apresentados 34
trabalhos na área de fenomenologia e pós-fenomenologia – o maior grupo de
pesquisa existente. Claramente, os dois estilos de análise são mais complementares
do que antagônicos.
REFERÊNCIAS
IHDE, Don. Positioning Postphenomenology. In: ROSERNBERGER, Robert; VERBEEK,
Peter-Paul (editors). Postphenomenological
Investigations: essays on human-technology relations. London: Lexington Books,
2015.

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