Posicionando a pós-fenomenologia

 


Posicionando a Pós-Fenomenologia

Don Ihde

Tradução de Jordan Bruno Oliveira Ferreira

 

Pós-fenomenologia é um estilo filosófico de análise que lida com os estudos científicos e tecnológicos. É algo recente em uma série de interpretações elaboradas ao longo dos séculos XX e XXI que tratam da ciência, da tecnologia, dos estudos culturais e da tecnociência. Mas por onde começamos? Se existe uma “abordagem padrão”, então a ciência moderna recente é tida como algo que data do século XVII. Mas o termo “cientista” não aparece ou é usado até o início do século XIX. William Whewell cunhou o termo em 1883. Antes deste neologismo, “filosofia natural” era o termo dominante em uso.

O que esta mudança no termo indica é uma questão mais profunda: quem deve interpretar a ciência? Intérpretes precoces poderiam ser identificados, ainda que anacronicamente, como cientistas (Galileu, Leewenhoek) ou como filósofos (Bacon ou Descartes). Mas, como eu tenho apontado, a ciência moderna no seu princípio tomou muito de sua especificidade das tecnologias – instrumentos, geralmente ópticos – então devemos também levar em conta que o que existe é a ciência e as tecnologias. E aqui o mesmo dilema aparece, já que o termo “tecnologia” só aparece no linguajar comum muito depois que o termo “cientista”. Historiadores como Thomas Hughes e David Nye têm apontado que “tecnologia” como um termo só aparece no início do século XX. Antes de tecnologia, existiam as “artes industriais” e “engenharias” ou “máquinas”. Em resumo, uma nova terminologia aparece bem depois, com as mudanças que dizem respeito a ciência e a tecnologia já tendo ocorrido na prática. Quando Whewell cunha o termo “cientista”, o cotidiano já havia demonstrado como um secular, dessacralizado novo modo de raciocinar poderia ser reconhecido enquanto tal. Similarmente, apenas após uma massiva industrialização o termo “tecnologia” poderia ser reconhecido. 

Aqui minha abordagem se relaciona a pós-fenomenologia como um modo particular de interpretação da ciência-tecnologia. Sua chegada coincide com uma mudança radical ocorrida na virada do século XX para o XXI nos estudos das relações entre ciência e tecnologia. Eu tomo o ano de 1979 como um divisor de águas por conta da publicação de dois livros: Laboratory Life, de Bruno Latour e Steven Woolgar e o meu Technics and Praxis. A obra de Latour geralmente é tomada como um marco de uma nova sociologia da ciência (é interessante que o título original era “construção social” dos fatos científicos, mas social foi abandonado na segunda edição). Meu livro é frequentemente citado como o primeiro livro em língua inglesa que tratava de filosofia da tecnologia. (Noto de passagem que não conhecia Latour naquela época, nem seu livro – o mesmo vale para ele em relação a minha pessoa e obra; nem “teoria do ator-rede” ou “pós-fenomenologia” eram descritos como métodos).

Não tenho o tempo ou o espaço aqui para delinear as variadas e importantes mudanças no entendimento da ciência, desde seu início moderno (século XVII) passando pela progressiva autonomia (século XVIII), até sua elevação ao status de forma suprema de conhecimento (século XIX). Ao invés disso, vou concentrar meus esforços em uma rápida série de mudanças, começando no século XX. Ainda no início do século, as interpretações dominantes eram centradas na matematização (Duhem, Mach, Poincare) seguida pela ascensão do positivismo (o Círculo de Viena, et al) e os intérpretes eram os cientistas, filósofos e historiadores – a maioria eram matemáticos, lógicos e teóricos. Ainda tomando a ciência como um tipo de conhecimento linear, acumulativo e a-histórico universal, algo herdado do XIX, esta interpretação era a dominante. Mas ela começou a ser questionada por volta da década de 1950 por uma postura antipositivista. Teóricos descontinuadores começaram a descrever “revoluções científicas” e uma ciência saturada pela história (Khun, Foucault, Feyerabend, et al). Ciência começou a ser tomada como uma estrutura cultural e histórica, e interpretada a partir de um novo contexto institucionalizado através da historiografia [history] e filosofia da ciência vinculadas a um departamento (nos anos 1950 e 1960). Juntamente com a historiografia e a filosofia da ciência existia também uma sociologia da ciência (Merton) que olhava para a prática científica, mas com um foco nos produtos da ciência – como as métricas das citações e as classificações. Esta sociologia da ciência cronologicamente coincidiu com os debates positivistas vs antipositivistas. No entanto, por volta da década de 1970, ocorreu mais uma reviravolta. Neste caso, suas origens eram mais relacionadas a aspectos sociológicos. No Reino Unido, sua localização mais precoce, existiam os Estudos Sociais do Conhecimento Científico (SSK, em inglês) e o Construtivismo Social, como terminologias de uma nova abordagem (Bloor, Barnes, Collins). Como no caso da anterior sociologia de Merton, construtivistas sociais também tomavam a ciência como uma prática, mas ao contrário de seus predecessores, eles começaram a ver que o conteúdo do conhecimento científico em si era “socialmente construído”.

Foi neste momento que a fenomenologia passou a ter um papel tangencial, de pano de fundo. Berger e Luckman publicaram The Social Construction of Reality (1966), obra inspirada pelos trabalhos de Alfred Schutz e Edmund Husserl. E, enquanto a fenomenologia era silenciada em sua versão inglesa do construtivismo social, manteve seu foco interpretativo na práxis. Agora chegamos no cruzamento de minha escolha, 1979, e no nascimento daquilo que seria a Teoria do Ator-Rede e pós-fenomenologia.

Em Laboratory Life, Latour descreveu a si mesmo como um sociólogo e antropólogo. Cultura de laboratório era o substituto para o termo “tribo” e ele poderia atuar como um observador participante. Então, como um observador, ele seguiria estes cientistas e técnicos para tomar notas acerca de suas atividades e conclusões. Como o conhecimento científico é produzido? Aqui, eu confesso, eu li este livro bem depois de seu lançamento, já que anos antes eu havia lido o seu Science in Action (1987), que tinha uma pegada bem mais filosófica redefinindo Laboratory, ainda que a maioria das ideias do livro já estivessem presente no livro anterior na forma de um diário-entrevista. Desde o princípio, ficou óbvio que a abordagem de Latour é radicalmente diferente dá que vemos em trabalhos de historiadores e filósofos da ciência, e também de sociólogos precedentes. Ele, de forma autoconsciente, trouxe uma abordagem “crítico literária” para descrever o que os cientistas fazem. Ainda que o glossário do livro não traga o termo “semiótica”, seu estilo é algo que posteriormente foi denominado semiótica material. Deve ser notado também que o laboratório em questão era o de Roger Guillemin no Instituto Jonas Salk, portanto um bioquímico. Assim, contrário aos interesses tradicionais dos historiadores e filósofos da ciência, que assumem um “primado da física, da matemática e da astronomia”, Latour prioriza a biologia, a química e a neurologia.

Eu inicio minha análise da obra com o retrato que Latour faz do laboratório em seu arquivo fotográfico – uma espécie de geografia do laboratório. Três imagens se sobressaem: maquinarias e instrumentos (cinco de quatorze) são mostrados. Pessoas – às vezes também usando estes instrumentos – são mostradas, geralmente debatendo ou lendo algum material. E, material de leitura – xerox, impressões, artigos e às vezes máquinas que produzem material impresso. Isto é, claro, o que o observador vê andando ao redor do laboratório. Agora suponha, imagine, um conjunto similar de fotografias associadas à abordagem do início do século XX (filosofia da ciência matematizada, teórica) – estas fotos seriam de um Einstein sentado e refletindo sobre um experimento mental? De um matemático fazendo cálculos em um quadro negro? Ou, de um kuhniano mostrando como um instrumento melhorado aponta para um novo paradigma que inclui novos modos de ler. Kuhn aponta que a teoria eflúvia do século XVII via “partículas de palhas... caírem de corpos eletrificados” (1970,117). Mas depois este fenômeno foi tomado como “repulsão eletroestática”, mesmo não sendo visível até que “Hauskbee montou um aparato de larga escala que ampliou a visão desses efeitos” (Kuhn, 1970, 117). E de novo, “Herschel, quando observou pela primeira vez o mesmo objeto vinte anos depois, conseguiu notar um aparente formato de disco que não era típico das estrelas”. O que estou sugerindo é que na época da abordagem matematizada, da ciência teórica, os instrumentos não possuíam um papel relevante; depois, o papel destes instrumentos (Kuhn) é reconhecido, aceito e acelerado com Latour.

Agora vejamos as três imagens que Latour apresenta como tema de sua antropologia-sociologia – mas também de suas observações teóricas de caráter hermenêutico-literário. Irei começar rascunhando a nova interpretação da ciência que resulta desta abordagem. Começarei não pela perspectiva aberta de Latour, mas com as “tecnologias” do laboratório. Primeiro, instrumentos bioquímicos diferem daqueles de outras ciências. Latour inclui entre suas fotografias (1) um contador Gama, (2) um aparelho de espectroscopia de ressonância magnética, (3) uma coluna de fracionamento e (4) um aparelho de análise automática de aminoácidos. A maior parte destes instrumentos se relacionam a bioensaios (um ensaio ou experimento científico com a função de investigar os efeitos de compostos biologicamente ativos, em um órgão isolado ou em um organismo vivo) e o material que é utilizado neste tipo de experimento é biológico, hormonal, químico – incluindo muita matéria encefálica de ratos e outros materiais oriundos de animais. Perceba que o objeto que está em construção é o TRF (ou TRH – hipotalamico liberador da tirotrofina) que demanda “toneladas de tecido hipotalâmico obtidos em matadouros). Os instrumentos mencionados são usados no processo de isolamento e identificação do TRF(H), o novo objeto científico de estudo. Latour reconhece o importante papel desempenhado pelos instrumentos (tecnologias) mas provê uma descrição peculiar deste papel: instrumentos são aparelhos de registro [inscription]. O que os instrumentos fazem é produzir o que posteriormente é descrito como uma “imagem”, mas que permanece como um registro. Isto é uma ênfase no visual no que Latour está desenhando a partir da dimensão hermenêutica-literária identificada em sua abordagem. Os instrumentos em uso aqui – espectrômetro e o aparelho de análise de aminoácidos – proporcionam gráficos (visuais). Estes são rabiscos padronizados reconhecíveis em uma série de aparelhos (como um eletrocardiograma) com picos, pulsos e coisas do tipo. Eu chamo estes padrões de imagens não-isomórficas que, ao contrário do que vemos em fotografias (imagens isomórficas que correspondem ao que foi fotografado), são mais parecidos com textos – ou textos codificados que são “lidos”. Ondas gráficas oscilantes impressas em um rolo de papel é o que o cientista vê. Percebe-se porquê a noção linguística de “inscrição” ou “traço” de Derrida pode ser notada nesta situação.[1]

Agora, abordarei o terceiro tema das fotografias – materiais escritos, artigos científicos, notas e coisas do tipo. Latour observa novamente a partir de um ponto de vista literário o trabalho realizado no laboratório – o que os humanos produzem? Textos, artigos, anotações. Como este material é produzido, lido e processado nos dá uma série de pistas acerca de como o conhecimento científico é construído. Não detalharei todas as ações de Latour, mas brevemente, o que se tem ao final de sua análise, o que resta, são fatos científicos. Neste processo, digamos, estilístico, todos os traços de história, subjetividade e construção são removidos. Então, ao contrário do que ele observa etnograficamente, todo o processamento que ocorre no laboratório, é tomado de modo a fazer com que o objeto [TRF(H)] seja removido de seu processo dinâmico. O que ficam são os instrumentos que produzem inscrições, que depois são publicadas em artigos científicos que alegam ter descobertos novos fatos científicos – mas estes são, por sua vez, descritos como descobertos, como coisas que estavam sempre lá. Em resumo, o estilo retórico deste estilo literário elimina as contingências, as disputas, o processo que ocorreu no laboratório e que foi observado por este sociólogo-antropólogo.

Agora precisamos falar dos humanos (da tribo) que opera os instrumentos e produzem os escritos. Aqui eu direciono meu olhar para o capítulo de conclusão, “A criação da Ordem e da Desordem”. Revendo suas observações, Latour descreve um processo pelo qual o objeto científico ou fato (TRF) vem a ser. De um modo geral, ele só se estabiliza após muito processamento – o TRF é lentamente construído por meio de muitas tentativas e manipulações, “após oito anos de inscrições geradas pelos instrumentos que sustentaram os extratos encefálicos, as afirmações científicas se estabilizam o suficiente para permitir uma virada rumo a uma nova articulação”. Agora, uma nova realidade, o TRF, é visto como consequência do processo. Apenas passando pelo que Latour denomina campo agonístico, pode o objeto-fato (TR) ser reificado ou materializado. Percebe-se que por um lado, Latour inverte o que usualmente se entende acerca de como o conhecimento científico é produzido. Na perspectiva de Latour, “natureza” é sempre a última a aparecer, uma consequência de uma longa construção; “Natureza é um conceito útil apenas como um subproduto da atividade agonística. O laboratório é o lugar onde a construção ocorre. 

Agora abordarei meu próprio livro, Technis and Praxis: a Philosophy of Technology, que também foi publicado em 1979. Filósofos raramente demonstraram interesse no tema da tecnologia, até a modernidade tardia. Mas após a Revolução Industrial e as Guerras Mundiais, o impacto das tecnologias não poderia mais ser ignorado. Para a filosofia, no entanto, isso demandava uma mudança de temperamento. O temperamento dominante na filosofia, desde a filosofia grega antiga, favoreceu o ideal, o abstrato, e muitas vezes marginalizou o material, ou, como no caso das reflexões sobre o corpo e a mente, colocou o material em uma hierarquia inferior. Portanto, em relação a ciência e a tecnologia, a segunda quase sempre foi rebaixada, tomada como um epifenômeno, ou uma “aplicação”. Comecei a perceber a importância das tecnologias, ferramentas e da materialidade das coisas quando ainda estava na Southern Illinois University. Fui encarregado de realizar atividades interdisciplinares no SIU Honors College, onde, em 1964, o tema era “a sociedade do lazer [leisure]”. As leituras propunham apresentar as tecnologias modernas como liberadoras de uma quantidade de tempo livre suficiente que possibilitariam a criação de uma “Nova Atenas”. Eu era cético em relação ao argumento do tempo livre e comecei a refletir sobre uma fenomenologia do trabalho. O que me chamou a atenção era ver como qualquer tipo de trabalho dependia profundamente de algum tipo de ferramenta, artificial ou tecnológica. Eu pedi aos meus estudantes que fizessem uma espécie de diário de seu cotidiano e descrevessem especificamente suas relações com as tecnologias.

(Acordado por um alarme; lidou com uma série de tecnologias de banheiro; torrou um pão com a torradeira; escreveu o diário com uma caneta e bloco de notas; de modo que cada aluno perceberia múltiplas – mesmo centenas – de relações travadas com tecnologias ao longo dos dias).

 

Naquela época, eu também estava lendo Heidegger de forma séria, partindo do tema do primado da prática [pragmata] sobre os objetos científicos na experiência humana do Mundo. Heidegger foi provavelmente o primeiro a alegar que a tecnologia é “ontologicamente anterior” à ciência. Por volta dos anos 1970, eu estava redigindo artigos sobre as relações humano-máquina com um especial interesse no papel dos instrumentos na atividade científica. Este trabalho foi convertido nos primeiros quatro capítulos de Technics and Praxis – uma série de análises fenomenológicas de diferentes tipos (de relações humano-tecnologia, incluindo exemplos de usos científicos).

Nestas análises, eu estava afirmando a existência de uma série de novas e não-clássicas modificações fenomenológicas: continuei a usar um termo que depois denominei de ontologia interrelacional, sugeridos a partir da “intencionalidade” de Husserl e do “ser-no-mundo” de Heidegger; mas exercendo um papel de mediação, eu inseri as tecnologias materiais. Mundo-Humanos-Tecnologias se tornou a expressão formal desta interrelacionalidade. Humanos ativamente utilizando tecnologias, se relacionando por mediação com o Mundo. O que veio a ser conhecido como minha “fenomenologia das técnicas” começou aqui, com uma análise descritiva das relações de incorporação, hermenêutica e pano de fundo. [depois adicionei as relações de alteridade em Tecnologia e Mundo da Vida, 1990]. Em Technics and Praxis, estes quatro capítulos foram denominados “Programa em Filosofia da Tecnologia”. Era uma clara análise orientada pela prática, ainda que não sociológica. Ao invés disso, era uma abordagem fenomenológica com ênfase na forma como cientistas e similares estavam incorporando, perceptualmente, ao adentrarem no mundo por meio de instrumentos. Não irei aqui detalhar este tema, já que ele reaparece várias vezes ao longo deste livro. Mas eu analisei os meios pelos quais alguém pode, utilizando instrumentos tecnológicos, ver estes são não-neutros, transformando a experiencia do mundo. Com meu exemplo do telescópio – que repeti e melhorei ao longo dos anos – analisei como o mundo celestial visto a olho nu é transformado pelo uso de instrumentos ópticos. De fato, por meio de instrumentos ópticos, a teoria Copernicana dos céus finalmente desbancou o mundo Ptolomaico. A fenomenologia de Technics and Praxis enfatizou o papel da incorporação aos usos das tecnologias. Diferentemente de Laboratory Life, a incorporação das tecnologias não se dá por meios linguísticos ou textuais. Esta diferença se sobressai por causa das divergências entre a abordagem semiótica e a fenomenológica adotada pelos autores. Ainda persiste como uma grande diferença até hoje.

Agora já ultrapassei a fronteira de 1979, mas os paralelos cronológicos persistem – ainda independentes – por muitos anos. John Law, um frequente editor e colaborador no Centre de Sociologie de l’innovation e da Ecole Nationale superiere des Mines de Paris, onde Latour e seu colega Michel Callon estavam lotados, notou que Callon começou a usar o termo “Teoria do Ator-Rede” por volta de 1982. No meu caso, após muitas leituras e discussões do pragmatismo norte-americano não-fundacionista liderado por Richard Rorty, comecei a dar aulas em Goteborg, na Suécia, sobre o tema da “fenomenologia não-fundacionista”. Mesmo que eu ainda não tivesse cunhado o termo “pós-fenomenologia”, virtualmente todos os intérpretes já percebem seu aparecimento por volta de 1986. Similarmente, ambos Latour e eu publicamos versões melhoradas de nossos livros de 1979 – Latour com Science in Action (1987) e eu com Technology and Lifeworld (1990). Tenho a opinião de que ambos os livros são melhores e mais coerentes que suas primeiras versões. Por volta desse período, nossos caminhos passaram a se cruzar em eventos e conferências [...] Eu estava ciente da existência de Science in Action e por meio dele, Latour teve um papel significativo no meu livro de 1991, Instrumental Realism: the interface between Philosophy of Science and Philosophy of Technology.

Um olhar para as novas interpretações da ciência e da tecnologia nos anos 1980 demonstram um rápido florescimento no campo das publicações: a filosofia da tecnologia finalmente levantou voo com Albert Borgman, Langdon Winner, Hubert Dreyfus e Andrew Feenberg se juntou ao grupo com livros publicados; pensadoras feministas como Donna Haraway, Sandra Harding e Evelyn Fox-Keller lidaram com temas da ciência-tecnologia. As sociologias francesa e inglesa proliferaram. Surgiram também elementos comuns que atravessavam a obra destes autores. Todos concordavam que a ciência, ao contrário das interpretações anteriores voltadas para o transcendental e a-histórico, é histórica, cultural e mesmo comprometida com gênero. Estes pensadores colocaram em funcionamento uma versão interpretativa, de estrutura interrelacional, de como se dá a construção da ciência e da tecnologia. Agora chegamos a década de 1990. Especificarei meu foco na emergência da pós-fenomenologia (1993 é o ano da publicação do meu Postphenomenology: Essays in the Postmodern Context).

Foi nos anos 1990 que conheci Peter-Paul Verbeek, primeiro como aluno de doutorado fazendo pesquisas interessantes sobre filosofia da tecnologia. Em 1997, Hans Achterhuis, colega mais velho de Verbeek, publicou American Philosophy of Technology: the Empirical Turn (primeiro em 1997, depois em 2001). O capítulo de Verbeek, “Don Ihde: The Technological Lifeworld”, foi uma ampla análise de meu trabalho, tomando como referência Heidegger. Verbeek já comparava a Teoria do Ator-Rede com a pós-fenomenologia e em uma palestra de 1998 realizada na Holanda, me pediu para falar sobre as relações entre as duas abordagens. Felizmente, eu já estava dando aulas sobre Science in Action em minhas disciplinas de filosofia da ciência. Mais importante, revendo o período, nós já estávamos lidando com alunos de graduação que tinham interesse nos estudos sobre ciência e tecnologia que realizávamos.

No meu caso, eu sonhava com a existência de algum instituto que realizasse esse tipo de estudo, e por volta de 1994, começou o que seria uma longa progressão de professores visitantes, cursos e pós-doutorandos, mas também alunos de mestrado da Europa e da Ásia. Monique Riphagen da Holanda e Sung Dong Kim da Coreia do Sul, com um projeto de tradução de Technics and Praxis para coreano, foram os primeiros. Tínhamos um grupo de leitura informal que continuou até 1998, quando o seminário de pesquisa em tecnociência foi estabelecido como parte efetiva do programa de doutorado de Stony Brook. Continuamos nossas leituras e os primeiros trabalhos incluíram o famoso “debate de galinhas” entre os defensores da SSK (Sociologia do Conhecimento Científico) e os defensores da ANT (Teoria do Ator-Rede) e nossos primeiros “filhotes” eram associados com essas linhas de pensamento. Isto continuou até minha aposentadoria em 2012 e contou com muitos professores visitantes, que produziram dissertações e teses em Stony Brook e no exterior. Doutorados de Stony Brook na área de tecnociência neste período incluíram Evan Selinger (RIT), Ken Yip (NYT), Robert Rosenberger (GIT), Kyle Whyte (MSU) e Adam Rosenfeld (NCA&M). Muitos desses filósofos jovens já possuem destaque na área e muitos já apresentaram trabalham em seminários voltados ao tema da pós-fenomenologia. Além disso, nos primeiros anos contamos com três dinamarqueses e um argentino que completaram mestrados, e doutorandos visitantes sob minha orientação incluíam dois dinamarqueses, dois noruegueses e um aluno da Suécia, Grécia, Reino Unido e Holanda.

Chamávamos esse grupo de Technoscience Research Group (TRG), com seu próprio seminário em tecnociência. Seu primeiro livro publicado foi Chasing Technoscience (2003) editado por Evan Selinger e eu. Lidava com o tema da materialidade nas obras de Donna Haraway, Don Ihde, Bruno Latour e Andrew Pickering, com contribuições e críticas dos professores do próprio TRG. Também estabelecemos a tradição da “sabatina” [roast]. Cada semestre possuía um tema e um “sabatinado” era escolhido – primeiro para ser lido e discutido por seis semanas – depois para ser criticado e sabatinado por três horas. Acabamos trabalhando com filósofos da ciência (Rouse e Galison), filósofos da tecnologia (Borgmann, Feenberg, Dreyfus, Winner e Verbeek), sociólogos da ciência (Pickering, Collins e Pinch), pensadoras feministas (Haraway, Harding e Fox-Keller), um historiador da ciência (Forman) e, finalmente, eu mesmo como parte da minha aposentadoria.

O seminário encorajava os participantes a formular conferências voltadas ao tema das relações entre ciência e tecnologia. A princípio, eram contribuições individuais durante os anos 1990 e primeiros anos dos 2000, por volta de 2006 nós começamos a propor painéis voltados especificamente ao tema da pós-fenomenologia que eram apresentados a Society for Phenomenology and The Human Sciences, e em 2007, para a Scoail Studies of Science e a Society for Philosophy and Technology. Estes evoluíram rapidamente para múltiplos painéis e já se quadruplicaram e quintuplicaram. No mesmo período, e em paralelo a operação em Stony Brook, Verbeek começou a dirigir um programa de pós-graduação que envolvia alunos da Holanda. Além disso, participantes de Stony Brook e mais de vinte países começaram a formar um grupo reconhecível, que hoje conta com mais de cem participantes.

Como a lista é muito extensa, apontarei que o número de publicações é crescente – livros, dossiês, artigos acadêmicos – no que diz respeito ao tema da pós-fenomenologia. Verbeek também continuou interessado na ANT e em pós-fenomenologia, criando um painel especial em Roterdã, o 4/S (2008) – que teve um público muito grande. Este tema foi posteriormente retomado em uma conferencia em Manchester (2009) e Arlington (2010). Verbeek também publicou dois livros muito citados, What Things Do (2005) e Moralizing Technology (2011). E estes dois livros também marcaram o inicio da primeira série sobre pós-fenomenologia, “Postphenomenology and the Philosophy of Technology”, publicada pela Lexington, que originou uma série de trabalhos gestados em programas de pós-graduação.

Concluindo, irei resumir alguns dos principais elementos comparativos dos dois tipos de análise:

- ANT e pós-fenomenologia empregam ontologias inter-relacionais. Mas as tradições filosóficas que lhes servem de base são diferentes. ANT se baseia na semiótica, que tem como fundamento a linguística textual. Pós-fenomenologia se baseia na incorporação da análise das ações humanas e da percepção. Mesmo assim, a interrelacionalidade nas duas não vê uma mudança no Mundo como algo que causa uma mudança no que é humano.

 

- ANT e pós-fenomenologia são materialmente sensíveis. Na ANT, sensibilidade ao material tomou a forma daquilo que é distinto nos actantes humano e no não-humano. ANT também se fundamenta numa geral e equalizada simetria entre humanos e não-humanos. Como víamos anteriormente, Law usa o termo semiótica material para se referir a esta situação. A pós-fenomenologia não se baseia em uma simetria específica, mas em uma série de gradações entre tipos de atividades. Mas ela ainda é materialmente sensível – por exemplo, a pós-fenomenologia reconhece intencionalidades instrumentais ou seleções embutidas nas tecnologias. Estou desenvolvendo uma hermenêutica material modelada a partir do uso de instrumentos científicos contemporâneos para “deixar as coisas falarem”.

 

- as duas metodologias abandonaram a dicotomia “sujeito-objeto” e substituíram múltiplas transições e noções estruturais como “translação” na ANT e “multiestabilidade” em pós-fenomenologia.  

   

- a pós-fenomenologia mantém uma versão da teoria variacional da fenomenologia, que é um método que possibilita múltiplas estruturas de modo a fazer ver que o que é variante e invariante seja visível.

 

Atualmente, nos círculos da STS na Europa, a ANT permanece como o método dominante. Eu noto que no painel de Manchester existia uma certa divisão, com os sociólogos trabalhando com a ANT, e os antropólogos trabalhando mais com a pós-fenomenologia. Filosofia da tecnologia é altamente favorável à pós-fenomenologia e em 2013 no evento de Lisboa, a Sociedade para a Filosofia e a Tecnologia, foram apresentados 34 trabalhos na área de fenomenologia e pós-fenomenologia – o maior grupo de pesquisa existente. Claramente, os dois estilos de análise são mais complementares do que antagônicos.

 

REFERÊNCIAS

 

IHDE, Don. Positioning Postphenomenology. In: ROSERNBERGER, Robert; VERBEEK, Peter-Paul (editors). Postphenomenological Investigations: essays on human-technology relations. London: Lexington Books, 2015.   

    



[1] Em seu livro, Latour reconhece a influência de Derrida em seus estudos para esta pesquisa.


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